Confusão de valores

Se eu desejo estudar mais, posso ter a impressão de que um caderno ou um livro novo vão me ajudar a conquistar este hábito. Mas não são esses objetos que vão fazer de mim uma boa estudante, e sim o meu esforço, a minha disciplina. Pode parecer óbvio, mas essas relações muitas vezes se confundem.

Dedicar-se diariamente ao estudo, tarefa muitas vezes solitária e cansativa, não é tão fácil e não traz uma recompensa imediata. Já os objetos materiais nos oferecem um prazer instantâneo. Embora possam servir como estímulo, por outro lado, eles podem nos desviar do objetivo principal, simplesmente porque ficamos viciados nesta gratificação sem esforço e iludidos de que ter algo nos deixa mais próximos de ser algo.

Se há muito a se fazer, não há conselho melhor do que começar com aquilo que já temos. Porém se somos diariamente bombardeados por lembretes de tudo que não possuímos e precisamos ter, como manter o equilíbrio e focar as energias nos recursos que já estão ao nosso alcance?

Limitar a quantidade de objetos que possuímos é uma opção, assim faremos uma seleção dos mais importantes e poderemos aproveitar o máximo de cada um deles. Se não há um controle do que temos e do valor de cada um desses itens, seja financeiro ou emocional, será fácil cair nas armadilhas de querer sempre algo mais. E passaremos a vida apenas pulando de uma coisa a outra, brevemente estimulados e constantemente insatisfeitos, desperdiçando a chance de construir algo realmente significativo para nós.

Qual o papel de ter tanto papel?

A batalha para me livrar do excesso de papel ainda está longe de ser vencida, mas a cada pequena vitória estou aprendendo um pouco mais. Embora seja um material facilmente reciclável, percebi que havia um grande desperdício dele na minha vida diária. Aos poucos, estou encontrando algumas soluções para reduzir a entrada e saída de papel, sem deixar de aproveitar o que ele tem de melhor a oferecer.

De forma resumida, estou migrando os seguintes itens para o digital:

  • Cadernos: concentrar o uso de cadernos no Evernote, tendo também, para os estudos, um caderno físico para anotações, e para o dia-a-dia, um bloquinho de notas para levar na bolsa. Ambos posteriormente digitalizados, para facilitar consultas.
  • Agendas: organização totalmente digital, com o auxílio de aplicativos de calendário e de lembretes.
  • Contas e boletos: pagamentos online, uso de débito automático sempre que possível; boletos salvos em PDF, economizando a impressão.
  • Comprovantes e recibos: quando necessários para algum controle ou consulta, devem ser digitalizados imediatamente, ou recebidos diretamente em formato digital, como a nota fiscal eletrônica.
  • Exames médicos: quando possível, recebidos em versão PDF, e os de papel, após mostrados ao médico, também são digitalizados.
  • Manuais de instruções: em vez de ocupar espaço com o que raramente será lido em papel, usar a versão em PDF vai facilitar a busca por uma informação mais específica.
  • Cópia e impressão de textos: evita-las, tentando conseguir primeiro o arquivo digital. Quando não é possível, caso seja preciso manter esse material após seu uso, optar pela digitalização.
  • Fotografias: digitalizar as fotos mais antigas é algo importante não só para economizar espaço, mas para preservá-las. E se depois desse processo for difícil joga-las fora, talvez uma alternativa seja criar um único álbum ou scrapbook com as preferidas.

Agora, para aproveitar o melhor da experiência do papel, mantive:

  • Diários pessoais: para uma escrita mais livre e independente da tecnologia: uso em papel. (Ainda sou muito apegada aos meus diários antigos, mas pretendo encontrar uma forma de digitaliza-los, já que são muitos).
  • Cartas: escritas tradicionalmente em papel. As cartas recebidas são mantidas na forma física, mas digitalizadas após um tempo.
  • Revistas: embora já seja possível a leitura de algumas em formatos digitais, as revistas em papel, em especial as antigas, são ótimas para recortes e colagens.

E, por enquanto, alguns itens são válidos apenas em papel, mas é sempre útil ter uma cópia digital:

  • Documentos
  • Diplomas
  • Certificados

OBS.: Sobre livros e ebooks, escrevi mais aqui.

A proposta não é sair digitalizando tudo que aparecer pela frente, afinal, um excesso de arquivos também é difícil de administrar. Como o processo de digitalização e organização é lento, isso naturalmente nos ajuda a fazer uma seleção daquilo que vale mesmo a pena manter.

No final das contas, consigo perceber mais claramente os itens que me trazem mais prazer quando os uso em papel e aqueles que apenas se acumulam em pilhas, pastas e caixas. A digitalização é uma opção para aquilo que é importante manter e encontrar facilmente, mas o ponto principal é rever aquilo que temos, definir o que realmente precisamos e nos dá satisfação, e controlar a entrada da papelada desnecessária.

O quarto ideal

Sempre acreditei que muito do nosso estado de espírito se reflete no ambiente em que vivemos e vice-versa. Nos momentos em que mais me sentia sobrecarregada, meu quarto, local onde passo grande parte do dia, se transformava em um verdadeiro caos. Para reencontrar a tranquilidade interior, era necessário parar tudo e colocar um pouco de ordem na bagunça exterior.

Arrumar os objetos me dava um grande alívio e até um certo prazer, mas eram momentâneos: mal acabava de organizar e já estava tudo bagunçado novamente. Depois de anos nesse círculo vicioso, finalmente percebi que estava lidando de forma superficial com o problema, e que talvez o peso maior viesse de fora pra dentro, e não o contrário, como eu imaginava.

Um quarto, a princípio, é pra ser um ambiente de descanso, introspecção, intimidade. No meu caso, concentro em um só ambiente meus locais de estudo, trabalho, lazer… quase esquecendo a sua função principal. Para agravar a situação, todas as superfícies horizontais (e algumas verticais) do meu quarto se encontravam tomadas por objetos, a maioria sem a menor utilidade nessa minha rotina multifuncional.

Agora sei que todas as tentativas de organização falhavam pois agiam apenas superficialmente. Demorei a perceber que um ambiente sobrecarregado de objetos, ainda que impecavelmente organizado, continuará sendo um ambiente sobrecarregado. Com excessos para todos os lados, minha concentração e meu sono também estavam sendo amplamente prejudicados.

 

room

Gostaria muito de dizer que este é o meu quarto agora. Na verdade, ele pertence ao minimalista Joshua Fields Millburn, e tem me inspirado de uma forma incrível. Sinto uma imensa paz ao olhar para esta fotografia, que já virou papel de parede do meu computador. O meu quarto ideal, mesmo sendo mais que um ambiente de descanso, não precisa de muito além disso. E o melhor de tudo é que esse “ideal” pode se tornar real de uma forma muito simples.

Em busca dos objetos essenciais

portas

Este ano o meu carnaval foi bem diferente. Ter a casa praticamente sem ninguém e vários dias seguidos de feriado foi a oportunidade perfeita para dar adeus, não à carne, como parece ser o significado da palavra, mas a muitos objetos que estavam tornando minha vida um tanto pesada.

Por não morar sozinha, tudo se concentrou no meu quarto, 16 metros quadrados que abrigam tudo que acumulei durante 25 anos de vida. Lugar onde passo a maior parte do meu dia e que deveria dizer algo sobre mim, e diz: eu não sei o que é essencial pra mim.

Eram tantas coisas (e ainda são), que não dá pra acreditar que a cada 6 meses eu fazia uma grande faxina, me desfazendo de muita coisa. Mas, se pensar melhor, esta limpeza periódica consistia em jogar fora alguns papéis, separar uma quantidade pequena de objetos para doar ou vender e, principalmente, mudar coisas de lugar, aliviando superficialmente o fato de elas estarem intactas por tanto tempo. Dessa vez usei critérios mais rígidos para saber o que iria manter. E assim deixei ir embora dezenas de sacos com papéis, roupas, livros, filmes e tralha, muita tralha.

O feriado acabou e muita coisa ainda estava por fazer. A pilha do “talvez” permanecia alta, com os objetos que mereciam mais uma chance, mas a verdade é que faltou coragem de me desfazer deles. Mesmo com 1/3 a menos de coisas, ainda me sentia rodeada por excessos.

Lendo sobre o tema, conheci um pouco sobre a história do Ryan Nicodemus, um dos minimalistas. Ele usou uma tática muito interessante (e eficiente) para descobrir quais objetos eram realmente essenciais em sua vida: fez de conta que estava de mudança e empacotou TUDO em apenas um dia. Todas as caixas e sacos ficaram separados em um dos cômodos de sua casa, e apenas os objetos que ele precisasse usar durante os dias seguintes poderiam ser retirados. Depois de um tempo, ele notou que a maioria das suas coisas continuava empacotada, e pôde então partir para o passo seguinte: doar, vender ou jogar fora o que se mostrou desnecessário.

Quis muito fazer o mesmo, mas para esvaziar o meu quarto, precisaria de um local para guardar as caixas, o que eu não tinha. Resolvi adaptar: esvaziei estantes, mesas, gavetas, e “escondi” tudo em duas portas do meu armário. Livros, filmes, cadernos e cartas – os objetos que tive mais dificuldade de me desfazer naquela primeira etapa – agora estão fora da visão. Não se passou nem 1 mês e foram menos de 15 objetos que deixei voltar para o lado de fora. Alguns até  devolvi para o armário, ao notar que tirei na intenção de usar e não usei. E para minha surpresa, não tenho sentido quase nenhuma falta do que ficou lá dentro.

Dei a esses objetos guardados o prazo de 1 ano para serem usados. Após esse período de teste, o que permanecer lá dentro terá que ir embora, seja o que for. Pode parecer muito tempo, mas acho que é suficiente para me convencer do que eu preciso realmente. E até lá, já consigo aproveitar a leveza que um ambiente sem entulhos proporciona. Estar no meu quarto e olhar ao redor sem sentir ansiedade, já que tudo que posso ver faz realmente parte da minha vida, é uma das melhores sensações.