Sobre o desapego e mudanças necessárias

Há algum tempo venho refletindo sobre o conceito de desapego e cada vez mais percebo o quanto ele têm se distanciado, para mim, dessa associação atualmente feita com o destralhar, o famoso declutter. Tenho percebido em mim, e em outras pessoas, que o foco do desapego material têm sido a eliminação de bens, não importando se o consumo continua alimentando este ciclo e nos deixando presos a ele. Afinal, a culpa por comprar algo desnecessário pode ser facilmente amenizada pelo ato de “desapegar”.

Muito tem sido falado sobre este processo de descartar os objetos comprados e pouco sobre formas de lidar com o consumo de forma controlada ou, simplesmente, alternativas para realmente usar o que você já comprou. Por conta disso, o nome do antigo blog, Deixando ir…, estava me parecendo muito ligado a essa ideia de descarte periódico que não faz mais sentido para mim. Reconheço que foi uma fase muito importante, que me ajudou a aliviar de forma rápida grande parte do peso que eu carregava, mas que não foi capaz de resolver a questão central do meu problema.

Muito mais do que deixar o maior número de coisas ir embora, percebi que o que eu necessito de verdade é aproveitar aquilo que eu deixei ficar, além de estar sempre me questionando sobre tudo que eu permitir entrar. O autoconhecimento e o autocontrole não vão ser alcançados se a minha preocupação principal for contabilizar a quantidade de objetos que eu tenho ou o quanto eu destralhei esta semana. A vida não pode se resumir a este constante troca-troca.

Vi pela primeira vez a palavra minsumer no site Miss Minimalist e usar este termo “minsumidora” no blog parece estar mais de acordo com esta minha busca por uma alternativa a ser “consumidora”. Espero daqui para frente continuar refletindo sobre o tema, à procura de caminhos para efetivamente construir esta identidade, que na verdade, precisa muito mais de ações do que de um nome.

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Vende-se tudo

No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos. O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou:

– Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
– Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.

Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.

Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante. Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas.

Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu. No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros.

Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar. Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que se torna cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida…

Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile. Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio. Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.

Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza… só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir, é melhor refletir e começar a trabalhar o DESAPEGO JÁ!

(Martha Medeiros)

TEXTO Via blog  / ILUSTRAÇÃO DE Yael Frankel, VIA SITE

O quarto ideal

Sempre acreditei que muito do nosso estado de espírito se reflete no ambiente em que vivemos e vice-versa. Nos momentos em que mais me sentia sobrecarregada, meu quarto, local onde passo grande parte do dia, se transformava em um verdadeiro caos. Para reencontrar a tranquilidade interior, era necessário parar tudo e colocar um pouco de ordem na bagunça exterior.

Arrumar os objetos me dava um grande alívio e até um certo prazer, mas eram momentâneos: mal acabava de organizar e já estava tudo bagunçado novamente. Depois de anos nesse círculo vicioso, finalmente percebi que estava lidando de forma superficial com o problema, e que talvez o peso maior viesse de fora pra dentro, e não o contrário, como eu imaginava.

Um quarto, a princípio, é pra ser um ambiente de descanso, introspecção, intimidade. No meu caso, concentro em um só ambiente meus locais de estudo, trabalho, lazer… quase esquecendo a sua função principal. Para agravar a situação, todas as superfícies horizontais (e algumas verticais) do meu quarto se encontravam tomadas por objetos, a maioria sem a menor utilidade nessa minha rotina multifuncional.

Agora sei que todas as tentativas de organização falhavam pois agiam apenas superficialmente. Demorei a perceber que um ambiente sobrecarregado de objetos, ainda que impecavelmente organizado, continuará sendo um ambiente sobrecarregado. Com excessos para todos os lados, minha concentração e meu sono também estavam sendo amplamente prejudicados.

 

room

Gostaria muito de dizer que este é o meu quarto agora. Na verdade, ele pertence ao minimalista Joshua Fields Millburn, e tem me inspirado de uma forma incrível. Sinto uma imensa paz ao olhar para esta fotografia, que já virou papel de parede do meu computador. O meu quarto ideal, mesmo sendo mais que um ambiente de descanso, não precisa de muito além disso. E o melhor de tudo é que esse “ideal” pode se tornar real de uma forma muito simples.

Omnia mea mecum porto

Hoje vou falar um pouco sobre um vídeo que tem me inspirado bastante nessa jornada. Ele está no youtube, mas pelo que entendi, faz parte de uma série de vídeos relacionados à vida simples e sustentabilidade, promovida pelo site independente faircompanies.com. Sendo assim, neste “episódio”, é feita uma visita ao apartamento do minimalista feliz Peter Lawrence. Chamei-o assim não apenas por ele ter escrito um livro de título The happy minimalist, que quero muito ler, mas porque é algo perceptível ao conhecer um pouco da sua história.

O vídeo está em inglês e sem legendas, mas o anfitrião tem um jeito muito tranquilo de falar, e acho que seu sotaque (por ter nascido na Singapura) ajuda na compreensão. Por isso, ainda que a sua compreensão do inglês não seja perfeita, não deixe de assistir, as imagens também falam muito.

Foi através deste vídeo que vi pela primeira vez como funciona na prática este estilo de vida. Ler sobre a experiência de alguns minimalistas pode nos dar uma ideia, mas “entrar” na casa de um deles tem um impacto muito maior. Para Lawrence, minimalismo é uma avaliação constante de quais são os recursos mínimos para se alcançar um objetivo. Ter apenas os objetos essenciais, e usá-los com criatividade, faz com que ele tenha uma vida mais simples e focada no que é importante. Com poucos móveis, até a limpeza do apartamento se torna mais simplificada. E com aquela vista maravilhosa, a sala dele não precisa mesmo de mais nada!

Peter justifica sua escolha comentando que se alguém gastar todo o dinheiro que tem, é possível consegui-lo de volta; já o tempo perdido, ninguém pode recuperar. Além disso, temos como calcular quanto dinheiro ainda nos resta, mas não há como saber quanto tempo de vida temos pela frente. Por isso, em vez de viver em função do dinheiro e dos bens materiais, sua prioridade é fazer um bom uso do seu tempo, dedicando-se ao desenvolvimento de novas habilidades, por exemplo.

Bom, não vou contar tudo, pois vale à pena assistir:

Que tal a TV de alta definição que ele tem?