Confusão de valores

Se eu desejo estudar mais, posso ter a impressão de que um caderno ou um livro novo vão me ajudar a conquistar este hábito. Mas não são esses objetos que vão fazer de mim uma boa estudante, e sim o meu esforço, a minha disciplina. Pode parecer óbvio, mas essas relações muitas vezes se confundem.

Dedicar-se diariamente ao estudo, tarefa muitas vezes solitária e cansativa, não é tão fácil e não traz uma recompensa imediata. Já os objetos materiais nos oferecem um prazer instantâneo. Embora possam servir como estímulo, por outro lado, eles podem nos desviar do objetivo principal, simplesmente porque ficamos viciados nesta gratificação sem esforço e iludidos de que ter algo nos deixa mais próximos de ser algo.

Se há muito a se fazer, não há conselho melhor do que começar com aquilo que já temos. Porém se somos diariamente bombardeados por lembretes de tudo que não possuímos e precisamos ter, como manter o equilíbrio e focar as energias nos recursos que já estão ao nosso alcance?

Limitar a quantidade de objetos que possuímos é uma opção, assim faremos uma seleção dos mais importantes e poderemos aproveitar o máximo de cada um deles. Se não há um controle do que temos e do valor de cada um desses itens, seja financeiro ou emocional, será fácil cair nas armadilhas de querer sempre algo mais. E passaremos a vida apenas pulando de uma coisa a outra, brevemente estimulados e constantemente insatisfeitos, desperdiçando a chance de construir algo realmente significativo para nós.

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Um detalhe importante

Embora às vezes eu tente escrever em um tom mais impessoal ou generalizado, todas as críticas que faço neste espaço se dirigem em primeiro lugar a mim. Tudo gira em torno de problemas que enxergo nas minhas próprias atitudes. Tenho tentado refletir sobre elas para poder agir de forma mais consciente. Sei que estou longe de ser perfeita, sei que não existem fórmulas absolutas, nem algo que seja certo para todos. Estou tentando buscar aquilo que é certo para mim. É duro expor coisas sobre mim que não são tão legais, e talvez por isso eu tenha dificuldade de assumir a primeira pessoa do singular em muitos textos. Sei que é mais fácil apontar os erros dos outros. Mas aqui, busco somente apontar os meus erros, o que já não é tão fácil assim. Ao menos dessa forma tenho a chance de aprender alguma coisa com eles. Tudo não passa de um grande desabafo comigo mesma.

A professora minimalista

professor

Desde que comecei a dar aulas, há alguns meses, venho tentando conciliar duas práticas aparentemente opostas: ser professora e minimalista. Por estar na profissão há pouco tempo, surgiu de imediato uma necessidade de conseguir mais livros, mais materiais, mais planos de aula, para tentar compensar a falta de experiência. Porém, observando outros professores, vejo que esta busca por mais realmente faz parte da profissão, já que ela demanda uma constante atualização.

Por isso, estou em busca de formas de crescer como professora, sem me perder em meio ao excesso de informações e ideias. Para começar, consigo pensar em alguns “princípios” minimalistas que podem ser aplicados à docência, em especial ao que diz respeito ao planejamento das aulas e aos estudos:

  • Aproveitar o máximo dos recursos que eu já tenho;
  • Adquirir novos recursos somente quando houver relevância e tempo para desfruta-los, e não apenas para acumular;
  • Ter atitudes práticas e objetivas quando precisar lidar com o excesso de informações: em pesquisas na internet, por exemplo;
  • Simplificar a quantidade de papel, digitalizando os documentos mais importantes para facilitar posteriores consultas, além de liberar espaço físico;
  • Lidar com as informações e ideias de forma organizada, para poder realmente desenvolvê-las;
  • Utilizar as tecnologias ao meu favor, otimizando tempo e espaço.

Colocar essas sugestões em prática é algo que estou tentando fazer. No momento, tenho muito mais reflexões do que resultados, mas ao menos estou mais atenta às minhas atitudes e escolhas como professora. Espero compartilhar mais sobre este processo nas próximas postagens.

Menos nem sempre é mais

Como etapa inicial na busca por uma vida mais significativa, o aspirante a minimalista dedica uma grande quantidade de tempo a fazer uma limpeza em sua vida. O foco é eliminar tudo que é desnecessário, negativo e que está em excesso. Este primeiro momento envolverá os objetos materiais (e virtuais) que foram acumulados ao longo da vida, mas logo se tornará necessária também uma reavaliação de outros aspectos não palpáveis, como os compromissos, os relacionamentos, os sentimentos.

Algumas pessoas, talvez, se percebam presas nesse processo de desapego e desprendimento. Embora seja um processo de uma vida inteira, já que trata-se de um estilo de vida, transforma-lo em uma obsessão em diminuir, editar, simplificar, minimizar, faz com que ele perca o seu objetivo fundamental.

Simplificar não significa deixar sua vida vazia, e sim abrir espaço para as coisas que você realmente deseja.

(Leo Babauta)

Ninguém busca uma vida vazia, mas se todos esses esforços se restringirem a alcançar o mínimo, a eliminar cada vez mais, logo já não restará mais nada. O objetivo de simplificar não deve se limitar ao ato em si, vai muito além. Ele deverá ter um impacto direto na vida diária, que agora poderá ser preenchida de forma muito mais consciente e significativa. Claro, não é uma tarefa simples refletir sobre os valores e sentidos de uma vida. Mas sem este exercício, todo o espaço (e tempo) que se abriu terá sido em vão.

Por isso, após este período mais intenso – e necessário – de faxina na vida, vamos passar menos tempo com as nossas gavetas e armários e mais tempo com nossas prioridades e sonhos.

Ir ou ficar?

barquinho

Toda mudança exige tempo e reflexão, e escrever em um blog parecia ser uma excelente forma de organizar as ideias e registrar o processo. Foi o que me motivou a iniciar o “Deixando ir…” em 2013. Porém nesses muitos meses que se passaram, apareci por aqui apenas sete vezes. O minimalismo deveria vir como tema e não como quantidade de posts…

Ao pensar sobre o futuro desta página, percebi que, a curto prazo, seria mais fácil considera-la um fracasso e simplesmente apaga-la. Mas não faz sentido se ainda tenho vontade de escrever e se o tema escolhido ainda está tão presente na minha vida. Diante das minhas expectativas, eu falhei, mas erro maior seria desistir, quando há tanto ainda a explorar e a aprender!

O fato é que ainda não consegui desenvolver o hábito de escrever, e a escrita se torna bem mais difícil quando temos que lidar com nossas falhas e dificuldades. Mas sem este esforço, deixarei ir embora a oportunidade de exercitar a autorreflexão que tanto preciso. Sem a ajuda deste blog, talvez nem os sete textos, que antes desvalorizei, teriam sido produzidos.

Finalizada a reflexão de hoje, que nem aconteceria se eu não tivesse sentado para escrever, está claro que preciso deixar ficar…

Deixando ir…

liberdade

Eu queria ler mais, então comprei muitos livros.
Eu queria assistir mais filmes, então aumentei meu número de DVDs.
Eu queria escrever mais, então passei a ter muitos cadernos.
Eu queria conhecer muitos lugares, então me tornei colecionadora de cartões postais.
Eu queria me vestir melhor, então mantive meu guarda-roupa cheio de peças.
Eu queria ter amigos, então procurei conhecer muita gente nova.
Eu queria ter mais tempo, então tentei organizar horários em agendas.
Eu queria viver intensamente, então revivi as lembranças do passado e sonhei com o futuro.

Durante muito tempo, minha vida funcionou assim. E não é surpresa constatar que quase nada do que eu queria virou realidade. Em vez disso, olho ao meu redor e vejo um excesso de coisas materiais, que tentaram em vão preencher os meus dias. Todos esses objetos me deram a ilusão de estar conseguindo aquilo que eu desejava, mas em pouco tempo, já entulhados e sem utilidade, só serviam de lembretes para o meu fracasso, pois se tornaram o reflexo daquilo que eu não consegui ser. Sensação parecida tive com os meus desejos que não eram palpáveis, já que tentei conquista-los usando medidas erradas, me concentrando naquilo que não era o mais importante, e até ficando cega para o que eu já tinha e não valorizava.

Felizmente, não é tarde demais para mudar. Há alguns meses conheci a história de pessoas que viveram situações parecidas com a minha e conseguiram fazer mudanças muito positivas em suas vidas. Elas passaram a ter uma vida mais plena colocando em prática o que chamam de minimalismo. Entre muitas coisas, estou aprendendo com este estilo de vida que menos é mais (e  muito melhor); que livrando nossas vidas dos excessos, abrimos espaço para o que nos faz realmente feliz; e que deixar ir não é só um processo de saídas, mas de escolher o que vale a pena ficar.

Tenho um longo percurso pela frente, mas a cada pequeno passo, sinto que estou no caminho certo. Não posso dizer que é fácil, mas têm sido libertador. Como forma de registrar este aprendizado, fazer reflexões e, quem sabe, inspirar outras pessoas, resolvi criar este blog. E de certa forma, estou finalmente realizando algo que quis tanto pra mim: escrever mais (e sem precisar de nenhum caderno).